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quinta-feira, 10 de maio de 2018

As palavras de um homem, um conto de Ton Botticelli – finalista do Prêmio Strix 2018

Salve, medievalistas e leitores de fantasia!

Hoje temos o quarto e penúltimo conto da lista de finalistas do Prêmio Strix 2018.


Estamos falando de As Palavras de um homem, de Ton Botticelli.


Estamos chegando ao final da lista... O Baladas Medievais, livro no qual todos esses contos foram originalmente publicados, é uma coletânea de contos de autores nacionais, que contém vinte e quatro contos de temática medievalista, a maioria passeando pela fantasia medieval tolkieniana, mas alguns abordando também temáticas mais históricas.


Como eu venho dizendo desde o começo, a ideia dessa série de posts é que esses contos finalistas possam ser lidos pelo maior número de pessoas possível antes da premiação, que acontecerá em outubro. Então leia, opine e torça pelo seu favorito! Ainda vamos falar mais sobre o Prêmio Strix e o evento Livros em Pauta aqui no Cena Medieval.

Agora, ao conto de hoje:


As palavras de um homem

No meu leito de morte haverá apenas meu bandolim e minha espada sobre meu corpo.
Quando pequeno, meu pai me disse que um homem pode abandonar tudo, incluindo sua vida, mas nunca sua palavra. Se ele fosse jurado, lutaria pelo juramento ao preço do próprio corpo. Se ele fosse casado, protegeria a esposa e os filhos como se fossem os dedos de sua mão e nunca os deixaria para trás. E se ele tivesse uma arma à qual desse o nome, ela seria uma extensão de seu próprio braço e alma. Por isso levo comigo Justiça e Glória.

Em determinado momento de minha infância, minha casa foi tomada pelo nosso senhor feudal e, expulsos, tivemos de vagar até encontrar onde residir e como nos sustentar. Éramos oito, contando meus pais e um tio com ferimentos de guerra que era inválido, e nos viramos como pudemos, fazendo pequenos serviços para comerciantes e outros baixos cidadãos com os quais esbarramos. Nesse ínterim, perdi uma irmã, e meu tio pediu para ser deixado com a igreja que os sacerdotes cuidariam dele. Desconfio que meu pai tenha quebrado seu juramento aí.

Ao chegarmos a uma pequena vila de nome Idlegard eu conheci Fobbo, o homem que mudou minha vida. Foi ele quem me ensinou as verdades do mundo e quem me apresentou os três prazeres a que o homem tem direito na graça do senhor: bebidas, mulheres e música. O primeiro sorvi no dia em que nos encontramos, uma boa dose de cerveja bem amarga. O segundo ganhei de presente nos meus treze anos com uma cortesã chamada Ula, que aliás se tornou minha amante por três verões. E finalmente a música… Essa me veio naturalmente em sua voz melodiosa e no que ele tocava todas as vezes que nos víamos.

Fobbo foi meu mestre e também meu melhor amigo, até morrer enforcado em praça pública por ter desobedecido à igreja. Lembro como chorei nos braços de minha mãe e em como tive que me esgueirar até seu quarto na estalagem para pegar seu bandolim. Naquele dia, eu o nomeei como Glória, em respeito ao que Fobbo havia me dito: A glória de um homem é poder desfrutar dos prazeres do mundo que lhe foram ofertados pelos deuses.

Sim, Fobbo era pagão e não me arrependo de ter aprendido com ele. Juntando tudo que ele e meu pai fizeram por mim, eu me tornei o homem que sou hoje. Perdi um quando criança ainda e o outro logo que me fiz adulto, para uma doença chamada corrupção. Meu pai, tendo enfim encontrando uma função para o senhor feudal de Charlstone, acabou sendo incriminado por um de nossos amigos, que ficou com inveja da atenção que ele recebia. Por direito, o denunciante tomou minha mãe como esposa e nossa família como herança. Nesse dia fugi de casa e fiz da espada de meu pai minha, e assim nasceu Justiça.

Passei a seguir pela estrada, procurando aqui e ali executar tarefas rudes, mesmo as mais simples, desde que me rendesse ouro e fama, para que eu me tornasse mais conhecido e útil para os senhores feudais. Decidi que só voltaria a Charlstone quando tivesse meu próprio exército e a bandeira de algum lorde para me sustentar.

Não demorei até arranjar encrenca.

Em Jaungard eu conheci aquele que seria meu braço direito, um gigante de nome Helio. Parecendo feito de pedra, foi ele quem se aproximou para tirar satisfação de minha presença, que o incomodava sumariamente. Pedi desculpas e me afastei, mas não bastou. Helio me perseguiu e me forçou a fazer alguma coisa por ele, primeiro tocar alguma música, que o deixou ainda mais furioso, e depois dançar. Ambos fiz sorrindo, desafiador, como Fobbo me ensinou. Se vai morrer, morra com um sorriso nos lábios, cumprimentando a morte, que enfim o alcançou na corrida. Quando a corda retesou em seu pescoço, ele gargalhava, não poderia fazer por menos. Isso trouxe o respeito de Helio, que depois passou a bater em qualquer um que tentasse rir de mim.

Ainda em Jaungard tive a oportunidade de me unir a uma pequena unidade sob a liderança de um homem ainda mais rústico que Helio, chamado Gond. Ele nos colocou a serviço de seu senhor e depois me patrocinou quando quis eu mesmo unir alguns homens. Meia dúzia. Nós cantávamos juntos, matávamos juntos e às vezes até transávamos juntos. Lembrei-me de Ula quando deitei pela primeira vez com Frida, mas ela me fez esquecer da cortesã ainda aquela noite. Tornou-se minha primeira esposa no meu décimo nono aniversário.

Os meus homens e eu nos tornamos conhecidos, éramos os Demônios Cantantes. Pilhar se tornou uma prática mais fácil, mais divertida e, por que não, mais recompensadora? De oito viramos dezesseis, vinte e, enfim, os trinta e três que eu queria. O exato número de homens que um dia meu pai tivera. De armas em punho, e com a proteção de Flailfin, o senhor feudal de Jiord, eu retornei a Charlstone para tomar a região.

Encontrei um feudo pobre, com um senhor tolo e uma população doente. O traidor de meu pai era seu principal serviçal e defensor de suas terras. Ele nos recebeu ainda na fronteira com um sorriso de quem tem tudo sob controle e nos ofereceu ouro. Negamos, é claro, e Helio fez questão de matar o emissário para dar um recado. Naquela noite começamos o cerco. Eles não conseguiriam resistir muito, então estávamos confiantes.

Engano nosso, principalmente meu. Vilario, o traidor, tinha espiões, e eles descobriram quem eu era pelo bandolim e pela espada. Reconheceram o filho de Darius e o bastardo que fugira de sua propriedade há tantos anos. Ele pegou meus irmãos que haviam sobrevivido à sua maldade e minha mãe e os prostrou diante da paliçada, ameaçados por flechas. Para provar que falava sério, feriu meu irmão caçula com uma lança, provavelmente deixando-o sem a perna direita. Eu tremi de raiva e Frida segurou minha mão.

Quando amanheceu, eu me reuni com meus homens e eles me olhavam temerosos. Sabiam das coisas que acreditava e que nunca quebraria nenhum de meus juramentos, mas também não abandonaria minha família, meu pai havia me ensinado bem. Eles esperaram e eu disse a verdade:

— Vou me entregar a Vilario… Se o inferno congelar antes. Quero dar a ele um gostinho de vitória e depois tirar. Vocês sabem o que fazer. Minha família deve ser protegida. Se eu morrer, não importa, Helio assumirá o comando do grupo. Só garantam que Frida e minha mãe se encontrem.

Nenhum deles contestou. Não adiantaria. Frida esperou que todos fossem se preparar e me puxou para dentro de minha tenda.

— Terei um filho seu, deveria saber. Mudaria algo?

— Não, mas você sabe disso.

— Sim, foi por isso que me apaixonei. Antes de ir, faça amor comigo.

— Farei, mas chame Helio. Quando eu morrer, ele a tomará como esposa. Quero que você o ame como a mim e ele a protegerá.

Ela o chamou e fizemos amor de forma sofrida. Eu a beijei uma última vez e depois a Helio, e ele nos envolveu em seu abraço e me senti feliz, completo e também imortal. Não poderia nunca morrer, se tinha aquele amor. Quando saí de minha tenda, meus homens me esperavam. Eu os cumprimentei e segui até a paliçada de Charlstone, onde Vilario me esperava.

Ele sorria, é claro, e havia feito questão de deixar meu irmãozinho, de perna ferida mesmo, pendurado por uma corda presa à cintura. Um aviso caso eu tivesse ideias. Não tinha, deixaria isso para Helio e os outros. Abriram os portões e entrei, e então me desarmaram, mas eu reclamei e segurei Justiça e Glória com todas as forças que tinha.

— Não lutarei, Vilario, e se duvidar, que atire flechas em mim, mas não me tire nem minha espada nem meu bandolim, me deixe morrer com eles.

Vilario gargalhou e eu soube que ele me achava patético e derrotado, então deixou que ficasse com os dois. Foi seu último engano. Quando puxaram o arco para atirar em mim, eu ouvi o sinal sendo dado. Meu trigésimo terceiro homem era um homem sem nome que tinha o belo dom de se infiltrar em qualquer lugar. E naquela manhã Charlstone amanhecera com um guarda a mais. Ele havia chegado até o portão e o abrira sem que os outros percebessem. Estavam tão confiantes que não imaginariam uma invasão. Vilario ordenou que me matassem, e assim eles fizeram, vindo me atacar em peso. Mas eu não cairia sem lutar.

Puxei Justiça e dilacerei o rosto do primeiro à minha direita, girando para cortar a jugular daquele à minha esquerda. Uma flecha se cravara em minha coxa e duas outras em meu peito. Eles eram rápidos, como bons arqueiros, e talvez tivessem me matado se meu homem não tivesse lutado por mim. Um a um, eles foram morrendo, mas eu só queria Vilario. Consegui chegar a ele e vi como era um rato gordo e inútil e não deixei que implorasse por sua vida. Encurralado, matei-o como o verme que era.

E essa foi minha vida. Em meus últimos instantes estou satisfeito, carregando Justiça e Glória. Ouço o choro de pessoas e talvez seja minha mãe e irmãos ou até mesmo Frida e Helio, ou ainda algum de meus homens que me encontrou caído. Não sei dizer. Sou só um garoto que não abandonou sua palavra até o fim. Ouço apenas uma voz me dizer, em meus minutos finais… Você não vai morrer, Artur, vai se tornar eterno. Isso é uma promessa para você.


Antônio "Ton" Henrique Botticelli começou como jornalista, mas deslanchou para a publicação de contos em 2013 quando ingressou na sua primeira antologia, Clímax, de contos eróticos. Depois disso partiu para os mais diversos gêneros, do terror à fantasia, do policial à ficção científica, tendo publicado inclusive em antologias em Portugal. Em 2017 foi indicado por um conto de temática steampunk para o Prêmio Strix, da Andross, e esse ano está de volta com o conto As Palavras de um Homem. Mantém um blog chamado Toca do Lobo Negro e é narrador de RPG.


Imagem de capa deste post por: Renata Saito


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