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quarta-feira, 9 de maio de 2018

Recompensa, um conto de Skald Rafael – finalista do Prêmio Strix 2018

Salve, medievalistas e leitores de fantasia!

Chegamos ao terceiro post dessa série, com mais uma das histórias finalistas do Prêmio Strix.


E o conto de hoje é Recompensa, de um tal de Skald Rafael.

Sim, o conto de hoje é meu!

Há pouco mais de um ano, o autor convidado e co-organizador do livro Baladas Medievais (que na época ainda era um projeto), Daniel Constantini, me procurou para fazer uma ação de divulgação, chamando novos autores para participarem.


Na época, eu fiz um post divulgando o projeto do livro: Publique sua história de temática medieval!

Acontece que eu próprio escrevo histórias de fantasia há muito tempo, mas por insegurança nunca havia publicado nada. Aprendi a direcionar minha criatividade para minhas mesas de RPG, mas ainda assim me frustrava por nunca ter publicado. Então decidi que esta era a oportunidade: resgatei um personagem de uma das minhas antigas mesas de D&D, escrevi uma história nova para ele e submeti meu conto para a seleção do livro Baladas Medievais.

Fui aprovado e, em outubro do ano passado, o primeiro passo de um sonho se realizou quando vi meu nome na lista de autores e uma história minha publicada nas páginas de um livro de verdade. Foi uma sensação incrível. Decidi publicar como Skald, pois é o apelido que recebi e o nome com qual me apresento no meio dos eventos medievais.

Para completar a minha felicidade, meu conto acabou ficando entre os cinco finalistas do livro para Prêmio Strix, que é concedido ao melhor conto de cada coletânea publicada pela Editora Andross.

E agora estou aqui, publicando no meu site os cinco contos finalistas, feliz pelo meu próprio estar entre eles. Os outros quatro autores são mais experientes, todos já haviam publicado em outras coletâneas de contos da Editora Andross, em anos anteriores, e pelo menos dois deles tem livros próprios publicados.

O objetivo dessa série de posts é que os leitores do Cena Medieval possam ler as histórias finalistas, prestigiar o Prêmio Strix (que vai ser entregue em outubro) e, quem sabe, se animarem para publicarem suas próprias histórias. ;)

Agora, ao meu conto, o terceiro dessa lista:


Recompensa

Aterrorizado, Gawen viu o raptor avançar em sua direção e recuou pela clareira, até suas costas encontrarem uma árvore. O que teria denunciado sua posição? Será que foi a fumaça? Será que deixei pegadas no leito do riacho? Questionamentos inúteis agora, enquanto um orc de dois metros de altura, a boca contorcida num sorriso de satisfação, avançava em sua direção com uma lâmina na mão.

Um contador de histórias, cuja história não será contada por ninguém, pensou Gawen, e fechou os olhos esperando pelo golpe.

Mas o golpe não veio. Em vez disso, um gemido e o som de um corpo atingindo o chão. Ao abrir os olhos, Gawen viu seu algoz morto, uma flecha no pescoço. A pena era negra. Sabendo que não adiantava correr, esperou que o atirador se revelasse.

Momentos depois, Gawen observou atentamente o caçador que se aproximava com passos mais leves que os de um gato: roupas de couro, pele clara, cabelo negro bem curto e orelhas semipontudas que indicavam sangue de elfos, mas não puro. Um arco e duas aljavas, uma grande nas costas e outra mais fina na cintura.

O caçador, por sua vez, caminhou para dentro da clareira e observou os pergaminhos espalhados no chão, a panela no fogo aquecendo algo que cheirava bem, o burro assustado amarrado numa árvore e o homem de meia-idade à sua frente, com largas vestes escolásticas e um gorro de abas longas que cobriam suas orelhas e tocavam os ombros. Puxou uma nova flecha da aljava na cintura, e Gawen reparou que esta tinha uma pena azul. Mas por algum motivo ele desistiu e guardou de volta, sem chegar a envergar o arco.

− Já que eu acabei de salvar a sua vida, que tal dividir essa comida, clérigo?

Como ele sabe que sou um sacerdote?, foi o primeiro pensamento de Gawen, mas suas vestes e os pergaminhos deviam tê-lo entregado. Uma hora depois, refeição partilhada e algumas palavras trocadas, o clérigo teve tempo de pensar e sentir gratidão.

− Meu nome é Gawen – começou, considerando que uma apresentação era apropriada.

O caçador olhou com uma expressão desconfiada enquanto terminava de mastigar, mas respondeu.

− Dór-Lólmier.

− Lólmier? −  indagou o clérigo, incrédulo. − Dór-Lólmier, o caçador?

− O único.

− Eu ouvi falar sobre você! Mas... pensei que fosse um elfo puro...

− Todos pensam.

− ...e mais alto.

− É, isso também.

Talvez fosse de fato Dór-Lólmier, famoso por ter rastreado o bastardo de Olaffen, entre outros feitos. Talvez não. Mas outra questão era mais relevante...

− Você sabe como chegar a Karmak?

− Talvez.

Demorou mais uma hora antes que o talvez se transformasse em sim e um preço justo fosse combinado. Gawen reparou que, além de pilhar o corpo do orc, Dór cortou a mão direita, que continha uma bizarra tatuagem vermelha. Além disso, recuperou a seta de pena negra, que foi guardada na fina aljava da cintura, junto com a de pena azul e duas outras de cores diferentes. As flechas na aljava das costas, por outro lado, eram todas de pena branca.

Horas de trilha depois, já imaginando a resposta, Gawen indagou:

− Posso perguntar por que você pegou a mão do orc?

− Meio-orc. Tava no rastro dele há uma semana. A tatuagem na mão vai garantir a recompensa.

− Justo.

Então Gawen viu o primeiro sorriso de Dór desde que colocara os olhos nele pela primeira vez, um sorriso presunçoso.

− O que me deixa curioso é por que ele tava caçando você.

− Eu sou um cronista real. Fui enviado à fronteira leste, na área de conflito com os bárbaros, e descobri algumas... informações relevantes.

− Você sempre viaja sozinho?

− Eu tinha um guia e guarda-costas, mas ele morreu de uma febre há quatro noites.

Dór pareceu satisfeito com a resposta, pois não perguntou mais sobre esse assunto.

****

Na terceira noite, hospedaram-se em uma taverna numa encruzilhada. O ensopado estava frio e os pães, duros demais, mas a fome era maior. Antes de apagar a vela do quarto, Gawen decidiu abordar um novo assunto.

− Posso ver que você é orgulhoso, e muitos ouviram falar de você.

Silêncio.

− Aposto que se incomoda em pensar que, quando morrer, essas histórias que contam sobre você vão morrer também.

O silêncio persistente de Dór e a expressão pensativa, sem sorriso, confirmavam a tese.

− Eu poderia escrever a sua história, e assim daqui a mil anos as pessoas ainda lembrariam.

− Bobagem. Vamos dormir, clérigo.

− Meu nome é Gawen.

O último olhar de Dór antes de se virar para a parede dizia como se eu me importasse com seu nome.

Mais uma semana de viagem e os dois alcançaram os campos de Elgrim. Karmak, a nova capital do reino, era visível a distância e com mais algumas horas de viagem chegariam, mas Dór insistiu que passassem num vilarejo antes, cujo taberneiro supostamente produzia uma cerveja de trigo excelente.

Naquela noite, uma escada de pedra atrás do moinho os levou a um corredor escuro, e, depois de uma porta de madeira, estavam numa taverna subterrânea cheia de fumo e tipos estranhos, semi-iluminados por velas em cada mesa. Quando Dór e Gawen entraram, as conversas pararam e orelhas se levantaram.

Numa alcova em frente, um gigantesco bugbear descansava, tendo numa das mãos o canudo de um cachimbo d’água oriental e na outra um tankard do tamanho de um balde.

− Ora, ora... Dór-Lólmier. Não posso dizer que fico feliz. Você trouxe meu prêmio, mas apostei em Korzog.

Dór retirou de um saco a mão decepada do meio-orc e jogou aos pés de Lugerk, o bugbear. A taverna inteira prendeu a respiração ao ver a tatuagem que identificava o temido Korzog, na pele de uma mão decepada começando a apodrecer.

− Invista seu dinheiro melhor na próxima − disse Dór, presunçoso.

Um pequeno góblin mascarado recolheu a mão no chão e a entregou ao líder, que a examinou por um momento antes de jogá-la no canto para que dois cães acorrentados lutassem por ela. Gawen olhava tudo aterrorizado, enquanto a compreensão lentamente lhe invadia.

Lugerk fez um sinal, outro góblin trouxe das sombras uma caixa de madeira e abriu na frente de Dór. Gawen viu uma flecha de pena vermelha.

− Você fez por merecer de volta sua preciosa flecha.

Dór pegou a flecha na caixa, avaliou-a aliviado e guardou na aljava da cintura.

− E cinco rubis, como prometido − completou o bugbear atirando um pequeno saco de couro, que Dór apanhou no ar.

Nesse momento, finalmente as palavras encontraram seu caminho pela garganta de Gawen.

− Você não estava caçando aquele Orc... Você estava me caçando...

Gawen olhou fixamente para Dór enquanto dizia aquelas palavras, mas o meio-elfo não olhou de volta: mantinha a cabeça baixa e uma expressão neutra enquanto avaliava seus rubis. Lugerk gargalhou estrondosamente, e logo foi acompanhado por todos em volta.

− Você teve sorte de vir caminhando, e não acorrentado dentro de um saco, como o último prêmio que Lólmier trouxe!

− Eu realmente cacei Korzog por uma semana − disse Dór, ainda sem encontrar os olhos de Gawen. − Ele parecia ter uma pista melhor pra chegar até você, então foi mais fácil caçá-lo do que procurar pelo seu rastro.

Sob as gargalhadas da taverna, Gawen foi levado dali à força, seu olhar de decepção fixado em Dór até o último momento.

Depois do que pareceu ser um mês numa masmorra escura e úmida, Gawen havia perdido as esperanças e a noção do tempo. Até que foi retirado dali, com a cabeça enfiada num saco fétido, e colocado numa carroça que o levou por um tempo. Quando parou, ouviu seus carcereiros conversando com alguém que parecia ser um comprador, mas o diálogo parou subitamente.

O saco de sua cabeça foi removido, a luz do sol o cegou por um bom tempo. Quando ele finalmente conseguiu enxergar, identificou os carcereiros mortos, cada um com uma flecha na cabeça, e à sua frente um rosto conhecido: o capitão Argos, da guarda real de Karmak, embora estivesse trajado como um comerciante.

− Como souberam onde me encontrar?

− Uma mensagem anônima descrevendo o local e a senha para comprá-lo como escravo. E o mensageiro me fez jurar por minha espada que você receberia isto.

O capitão entregou a Gawen um rubi e uma carta, ainda selada. Gawin leu o curto texto e sorriu. A última frase era:

Ainda quer contar a minha história, clérigo?


Skald Rafael, pseudônimo de Rafael G. Esteque, é redator e criador do site Cena Medieval, e escreve eventualmente para o site Justiça Geek. Formado em Direito, estudante de História e narrador apaixonado de mesas de RPG, de onde saem suas principais histórias.


Imagem de capa deste post por: Renata Saito


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