terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Resenha de O Arqueiro, de Bernard Cornwell

Salve, medievalistas!

Vamos falar de livros mais uma vez. E o livro de hoje é um que não poderia estar mais relacionado com a temática do blog: O Arqueiro, de Bernard Cornwell.


Este livro é o primeiro de uma trilogia cuja história se passa no começo da famosa Guerra dos Cem Anos, um dos conflitos mais importantes da Idade Média, travado entre os reinos da Inglaterra e da França. Se você ainda não leu, pode ficar tranquilo porque essa resenha é sem spoilers, e pode ser que eu te convença a dar uma chance pra esse romance foda.

Tenho estado um pouco afastado do blog, mas não é por falta de vontade, apenas por absoluta falta de tempo. Terminei de ler O Arqueiro recentemente. Quem acompanha meu instagram (@cenamedieval) talvez tenha reparado que eu estou lendo esse livro há alguns meses, mas demorei pra conseguir terminar porque tive que parar para fazer algumas outras leituras.

Nosso querido Bernard Cornwell

(tio Bernardo Bem-Milho para os íntimos)


Bernard Cornwell merece o título de Mestre da Ficção Histórica. Apesar de não ser historiador por formação, ele é muito competente em fazer pesquisa histórica e usar as informações factuais para transformar em narrativas interessantes. Prolífico, ele é o autor de cinco grandes sagas, cada uma ambientada em um grande conflito histórico, além de alguns outros livros soltos que também seguem o estilo da ficção histórica.


Quem já leu mais de uma saga dele sabe o que o modus operandi em geral é: criar um personagem fictício que servirá como observador (o leitor verá a história da perspectiva dele), mas relacioná-lo com personagens históricos. Isso dá liberdade a Cornwell para usar trechos conhecidos da vida de personagens históricos famosos sem ter que inventar muito em áreas que os registros históricos não abrangem (e portanto sem cometer impropriedades históricas muito grandes).

A trilogia completa

Enfim, o grande talento dele é pegar informações históricas concretas, dentro de um dado recorte histórico, preencher as lacunas que nós não conhecemos com coisas factíveis (além de alguma liberdade poética aqui e ali) e transformar tudo isso numa história que te cativa, em geral te colocando dentro da guerra, na pele de um soldado. Em O Arqueiro, o personagem principal é Thomas de Hookton, um jovem arqueiro alistado no exército inglês de Eduardo, no início da Guerra dos Cem Anos.

Uma das capas do livro na gringa

A Guerra dos Cem Anos


Você não precisa estudar a história da guerra para entender o romance, mas se você é o tipo de pessoa que gosta de história, o livro é um prato cheio, pois Cornwell dá uma aula de história enquanto entretém você com ação quase ininterrupta. E mesmo pra quem considera que um romance histórico não ensina a história propriamente dita, ele no mínimo pode dar aquela fagulha de curiosidade que vai te fazer ir atrás e pesquisar sobre os movimentos históricos que levaram àquele conflito em que os personagens estão inseridos.

A desculpa pra começar...


A desculpa que os ingleses tiveram para começar a guerra em 1337 foi uma questão de sucessão: o rei Carlos IV da França havia morrido em 1328 sem herdeiros diretos e seu parente mais próximo era seu sobrinho Eduardo III, rei da Inglaterra, mas os nobres franceses colocaram no trono Filipe de Valois. No entanto, o real e principal motivo para o conflito era o domínio da região de Flandres (atualmente Holanda e Bélgica), já na época um dos pontos mais importantes para o comércio europeu, e os nobres ingleses queriam lucrar com a venda da lã produzida na Inglaterra (money talks).


[Jeanette] odiava todos os ingleses, e no entanto, à medida que as semanas passavam, foi vendo os habitantes da cidade aprovando os ocupantes, que gastavam um bom dinheiro em La Roche-Derrien. A prata inglesa era de confiança, ao contrário da francesa, enfraquecida com chumbo ou estanho. A presença dos ingleses isolara a cidade de seu comércio costumeiro com Rennes e Guingamp, mas os armadores tinham, agora, liberdade de negociar com a Gasconha e a Inglaterra, e por isso os lucros aumentaram. Navios locais eram fretados para importar flechas para as tropas inglesas, e alguns dos capitães dos navios traziam na volta fardos de lã inglesa que revendiam em outros portos bretões que ainda eram leais ao duque Charles."


Uma guerra muuuito longa


Os conflitos se estenderam por mais de cem anos, com alguns períodos de trégua no meio, e abalaram as estruturas européias, tendo como uma das consequências acelerar os processos de formaçao dos estados nacionais inglês e francês.

De forma geral, fazendo uma grande simplificação, a França era um reino mais rico, dispondo de mais recursos (humanos e financeiros) para usar na guerra, de modo que a Inglaterra precisava lançar mão de mais estratégia. E nesse contexto, os arqueiros ingleses fizeram uma grande diferença, não apenas pelas estratégias que uma arma de longo alcance possibilita como também pelo fato do arco ser uma arma relativamente barata (embora exigisse grande expertise). Um batalhão de arqueiros era mais barato e versátil do que a típica cavalaria medieval, podendo fazer uma diferença enorme.

Ilustração de Graham Turner

Thomas: herói fictício mas muito real


A maior parte do livro se passa no ano de 1346 (ou seja, dez anos depois do começo da guerra, que duraria mais de cem). Thomas de Hookton, o personagem fictício pelos olhos do qual acompanhamos a narrativa, é um dos milhares de arqueiros do exército inglês que está invadindo e saqueando a França.

Se for o primeiro livro do Cornwell que você lê, talvez você tenha a impressão de que o autor puxa um pouco a sardinha para um dos lados (neste caso a Inglaterra), mas eu acredito que isso é meramente a criação de um maniqueísmo artificial aqui utilizado como recurso narrativo, e não uma opinião do autor. Eu que já li outras sagas dele percebo ele usando esse recurso repetidamente. Por exemplo: na Saga do Rei Artur, os personagens principais são habitantes das ilhas britânicas (compreendendo diferentes povos, como os celtas) sofrendo a invasão dos "vilões" saxões. Mas nas Crônicas Saxônicas (ambientadas num momento histórico séculos depois), os personagens principais são os saxões (agora os donos do pedaço) sofrendo a invasão dos vikings.

O arco inglês


Ilustração de Graham Turner

O arco inglês é uma arma meio lendária muito discutida entre os medievalistas (alguns chamam de "arco longo", mas isso é um anacronismo pois essa nomenclatura surgiu apenas séculos depois da Idade Média). Afinal, quais eram as reais vantagens e desvantagens dessa arma e sua real eficácia na guerra? Ao contrário do que muitos pensam, a história não nos dá a resposta pronta pra esse tipo de pergunta, e consequentemente a historiografia tenta responder através de pesquisa e alguma dose de especulação.


"(...) Arqueiros não levavam as aljavas que os caçadores usavam, porque as aljavas eram abertas na parte de cima e as flechas podiam cair quando o homem corresse, tropeçasse ou atravessasse com dificuldade uma cerca viva. As flechas de uma alava ficavam molhadas quando chovia, e as penas molhadas desorientavam o vôo das flechas, de modo que os verdadeiros arqueiros usavam sacos de linho impermeabilizados com cera e fechados com cordões. Os sacos eram forrados com armações de vime que mantinham o linho esticado para que as penas não fossem esmagadas."


No romance, Cornwell obviamente dá uma atenção especial para o arco, afinal o personagem principal é um jovem arqueiro, mas o grande mérito do autor é justamente não escrever sobre nada que ele não tenha pesquisado muito.


"Havia arqueiros em ambos os lados da estrada, e eles saíram da nova folhagem primaveril e soltaram as cordas de seus arcos. A segunda flecha de Thomas estava no ar antes que a primeira atingisse o alvo. Olhe e solte, pensou ele, não pense, e não era necessário mirar, porque o inimigo era um grupo compacto e tudo o que os arqueiros fizeram foi despejar as longas flechas sobre os cavaleiros, e assim, num piscar de olhos, a carga foi reduzida a uma massa confusa de garanhões empinando, homens derrubados, cavalos berrando e sangue espirrando. O inimigo não teve chance. Uns poucos que estavam na retaguarda conseguiram dar meia-volta e fugir a galope, mas a maioria ficou presa em um anel, que se fechava, de arqueiros que faziam suas flechas penetrarem em cotas de malha e couro. Qualquer homem que simplesmente se mexesse atraía três ou quatro flechas. A pilha de ferro e carne estava espetada de penas, e ainda assim as flechas chegavam, atravessando cotas de malha e penetrando fundo em carne de cavalo. Só os poucos homens da retaguarda e um único homem na frente da carga sobreviveram."


As pessoas (leia-se: os nerds) adoram comparar uma arma com a outra e discutir qual é melhor ou mais eficiente (de fato achamos isso divertido), mas a verdade é que é uma discussão um pouco inútil e infrutífera, pois cada arma ao longo da história é uma tecnologia que foi criada numa situação específica com um dado propósito, e eventualmente foi superada por alguma outra técnica. Ou seja, a análise da eficácia de uma arma só faz pleno sentido no contexto histórico original dela.


"– (...) Alguma vez você já disparou uma besta?
– Não.
– Não é assim tão fácil quanto parece. Não é tão difícil quanto disparar uma flecha de verdade, é claro, mas ainda assim é preciso treino. Essas malditas coisas pode atirar um pouco alto, se você não estiver acostumado com elas. O Jake e o Sam querem ajudar você?
– Eles dizem que querem.
– Claro que querem, são uns safados. – Skeat ainda olhava fixo para Sir Simon, que usava uma nova e brilhante armadura. – Eu imagino que o bastardo leve o dinheiro dele com ele."


Dito isso, nós sabemos que o arco foi um elemento importante das táticas de guerra inglesas na baixa Idade Média e especialmente na Guerra dos Cem anos. Há quem defenda que os arqueiros foram os principais responsáveis pelas vitórias inglesas em batalhas famosas como Crecy e Agincourt, e é provável que tenham sido mesmo, mas nenhuma arma é definitiva, tanto que na segunda metade da guerra a França melhorou suas estratégias e retomou a maioria dos territórios perdidos, mesmo sem ter arqueiros.


"(...) Ele disparou, mas no mesmo instante em que deixou a corda estalar viu que a flecha estava empenada. Ela voou baixo, penetrando na perna esquerda do homem, em vez de nos rins, onde Thomas mirara. Ele tirou uma segunda flecha, mas agora havia 12 cavaleiros na ponte, as patas de seus cavalos tirando faíscas das pedras do pavimento, e os homens que iam na frente abaixaram as lanças para tirar os poucos arqueiros do caminho, e depois concluíram a travessia e galoparam pelas ruas mais distantes em direção ao castelo. A flecha de penas brancas ainda se projetava da coxa do cavaleiro no ponto em que penetrara fundo, e Thomas enviou uma segunda flecha atrás dela, mas a outra desapareceu na fumaça quando os fugitivos franceses sumiam nas estreitas ruas da cidade velha."


Como o próprio Cornwell esclarece nas notas históricas do livro, o que levou o arco inglês a esse status de arma tão importante foi uma conjunção de fatores, um fenômeno praticamente isolado. O arco é uma arma muito barata (se comparada ao custo de um cavaleiro com espada, armadura e cavalo), mas ao mesmo tempo é uma arma que requer anos de treinamento árduo, e apenas na Inglaterra (e no reino vassalo País de Gales) a prática da arquearia se entremeou com a cultura local, de modo que durante muito tempo só os ingleses produziam arqueiros em quantidade e qualidade suficiente para fazer diferença em uma guerra.

Foto de Thom Atkinson mostrando o equipamento de um arqueiro inglês à época da Batalha de Agincourt (1415)

É uma discussão que vai longe e eu não quero cansar vocês aqui, mas em resumo o arco inglês foi altamente eficaz num contexto específico, e é justamente nesse contexto – o auge do arco inglês – que Cornwell ambiente o romance.

Críticas


O livro poderia ser um pouquinho mais curto. Mesmo com a ação quase ininterrupta e as geniais descrições de batalhas, alguns trechos são um pouco repetitivos. Nada que chegue a estragar a leitura, mas merece ser pontuado.

Os personagens são medianamente interessantes – os conflitos humanos mais interpessoais não são o forte de Cornwell, e justamente por isso o livro deixa um pouquinho a desejar nesse aspecto. Eu não mencionei antes, mas a trilogia na qual O Arqueiro está inserido é a série A Busca do Graal. Talvez você se pergunte: ok, como isso se relaciona com a Guerra dos Cem Anos? Eu também me fiz essa pergunta antes de ler o livro, e mesmo depois de terminar a resposta não me satisfaz completamente (ainda). Neste primeiro livro da trilogia, a busca do Santo Graal serve como contexto para o desenvolvimento do personagem principal, Thomas de Hookton, e a relutância dele em aderir a essa missão é um fator muito determinante de sua personalidade, mas ainda assim esse plot corre de forma paralela ao contexto principal da história (que é a guerra), numa relação que pra mim pareceu pouco orgânica.

Talvez esse problema vá ser solucionado nos dois outros livros e, ao final da trilogia, eu veja com outros olhos este primeiro romance, então por enquanto essa crítica fica aqui pontuada, mas com ressalvas.

Se você já leu a trilogia, deixe aqui sua opinião! E se você não leu, dá uma chance, não vai se arrepender.

Outra edição gringa do livro

Links interessantes


Se quiser ler mais sobre o arco inglês, eis um ótimo artigo (em inglês) do site Realm of History sobre o assunto:


Leia também aqui no Cena Medieval:



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