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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Resenha de O último Desejo, o primeiro livro da saga Witcher

Salve, medievalistas!


Uma das principais inspirações pra nós que curtimos medievalismo é a literatura fantástica. Fazia tempo que eu não sentava de fato pra ler um livro dessa temática, mas acabei de terminar o primeiro livro da saga Witcher e achei legal deixar minhas impressões brevemente registradas aqui.


Fica aqui meu agradecimento pra minha melhor amiga, Iolanda, que encheu meu saco até eu começar a ler me deu o livro de presente e me introduziu nessa saga foda, em algumas de nossas inúmeras conversas literárias.

O livro é composto de vários contos. E a cronologia destes, diga-se desde logo, é uma zona. Recomenda-se que a leitura da saga comece por esse livro por nele estão reunidos os contos que vem primeiro na cronologia da história, mas há dois outros livros publicados anteriormente, com contos que se situam em pontos distantes da linha temporal.

Esta foi exatamente a edição que eu li, da Martins Fontes

Em outras palavras, o que parece que aconteceu é que o autor tinha uma série de contos não lineares sobre o personagem principal, e conforme a história ganhou vida, esse livro, O Último Desejo, foi publicado em 1993 como um ponto de partida para novos leitores da saga, reunindo os contos que o autor então decidiu colocar em primeiro lugar cronologicamente. O próximo livro a ser lido, Espada do Destino, foi publicado antes, em 1992, mas contém contos que cronologicamente vem depois.

E ambas coletâneas vem antes da saga principal, composta de cinco romances, começando com O Sangue dos Elfos, publicado em 1994.

Mas a saga só passou a ser conhecida de fato a partir de 2009, quando foi lançado o primero jogo da série The Witcher, e nesse mesmo ano foi lançada a primeira versão em inglês de O Sangue dos Elfos.

Dito isso, vamos falar de O Último Desejo, da forma como ele é apresentado para um leitor que ainda não conhece nada da história (que era o meu caso): trata-se de uma coleção de 7 histórias curtas, sendo que seis são contos fechados e a sétima história (A Voz da Razão) vai sendo contada ao longo de todo o livro, como se ela fosse o "tempo presente" do personagem principal e cada um dos contos fosse um flashback. Uma maneira bem criativa de montar o livro para aproveitar contos que já existiam e organiza-los para se encaixarem na saga.

Esta é uma outra edição, com capa diferente, também da Martins Fontes
Todos os contos usam elementos de mitologia e alguns reaproveitam elementos de histórias clássicas, como A Bela e a Fera e Branca de Neve e os Sete Anões, mas dando significados completamente novos e às vezes até um tom um pouco sarcástico.

Não pretendo comentar cada um dos contos, mas queria dizer que o meu favorito no livro foi o quinto e penúltimo, Os Confins do Mundo. Gostei especialemente dele pois o autor apresenta os elfos como um povo antigo que foi empurrado pelos humanos para as montanhas e hoje vive escondido, tentando se adaptar a um mundo que está sendo moldado por uma raça nova e mais jovem. Em outras palavras, os elfos eram caçadores-coletores, enquanto os humanos surgem como agricultores. E a grande sacada aqui é que os elfos, embora mais lôngevos, mais sábios e mais sensíveis que os humanos, têm dificuldade em entender e lidar com a agricultura (que, ironicamente, foi uma das grandes vantagens dos seres humanos em relação ao resto das espécies, no mundo real). Essa diferença entre os elfos e os homens de Sapkowski fica muito bem representada em um diálogo neste conto:

"– São vocês, humanos, que odeiam tudo o que se diferencia de vocês, nem que seja apenas o formato das orelhas – continuou calmamente o elfo, sem dar a mínima atenção às intervenções do chifroide. – E foi por isso que nos tiraram nossas terras, expulsaram-nos de nossas casas e exilaram-nos nas montanhas selvagens. Vocês ocuparam nosso Dol Blathanna, o Vale das Flores. Sou Filavandrel aén Fidháil das Torres de Prata, da estirpe dos Feleaornos das Brancas Naves. Atualmente, expulso e perseguido até os confins do mundo, sou Filavandrel dos Confins do Mundo.

O mundo é vasto – murmurou o bruxo. – Podemos todos caber nele. Há lugar de sobra.

O mundo é vasto – repetiu o elfo. – É verdade, humano. Mas vocês mudaram este mundo. No início, com o uso da força, trataram-no da mesma forma com que tratam tudo o que lhes cai nas mãos. Agora, ao que parece, o mundo começou a se adequar a vocês. Rende-se a suas vontades, obedece-lhes.

Geralt não respondeu.

Torque falou uma verdade – continuou Filavandrel. – Estamos passando fome e nos sentimos ameaçados de extinção. O sol brilha de mandeira diferente, o ar não é mais o de outrora e a água não é a mesma. Tudo o que costumávamos comer e usar está desaparecendo, diminuindo, se deteriorando. Nunca cultivamos a terra; diferentemente de vocês, humanos, jamais a ferimos com arados e enxadas. A vocês, a terra paga um tributo sangrento; a nós, ela nos presenteava. Vocês arrancam à força os tesouros da terra; para nós, a terra crescia e florecia, porque nos amava. A vida, porém, é assim mesmo. Nenhum amor é eterno. Mas nós, apesar de tudo, queremos sobreviver."

É uma maneira muito legal de apresentar esse mundo. Não quero dizer mais para não soltar nenhum spoiler maior, mas a conclusão desse conto também é fantástica.

Verdade seja dita também: fica claro que o autor, ao menos na época que escreveu estes contos, não era muito sistemático ao criar os elementos de seu universo – ele simplesmente vai jogando as informações, e dá um jeito de amarrar tudo depois. Alguns conceitos são apresentados de forma muito breve, mesmo servindo como premissas para a narrativa, de forma que podemos acabar perdendo detalhes importantes. Uma segunda leitura, já conhecendo o cenário, provavelmente seria mais proveitosa para absorver tudo isso.

O universo que o autor apresenta parece ter bastante influência de RPG's como Dungeons & Dragons. Digo que parece pois obviamente os próprios elementos de RPG são baseados na história do mundo real, mas o autor é bem claro em demonstrar, por exemplo, que há diferenças bem delimitadas entre bruxos (dos quais o personagen principal faz parte), feiticeiros e druidas – quase como se ele tivesse montado um sistema de classes. Fãs que acompanham o trabalho do autor de forma mais assídua podem me corrigir se eu estiver errado.

Pra quem joga RPG, vale comentar que é um cenário de alta magia, ou seja, um universo no qual a magia é algo relativamente comum e aceito pelas pessoas em geral. Ao mesmo tempo, em alguns momentos os personagens revelam ter conhecimentos quase científicos e analisam os fenômenos à sua volta de forma bem racional (o próprio Geralt é um grande exemplo disso). Nesse aspecto, é possível fazer uma grande comparação com o universo de Game of Thrones: ambos os cenários são fundamentalmente medievalistas, ou seja, utilizam os elementos mais romanceados da Idade Média, mas admitem elementos, pensamentos e ações dos personagens que seriam praticamente impossíveis no nosso período medieval histórico.

Outro grande arquétipo que o cenário de Witcher compartilha com Game of Thrones e também com o Senhor dos Anéis é a noção de que o mundo está mudando. Os personagens estão vivendo o limite de uma época de transição entre uma era e outra, e são ativos nas mudanças que estão ocorrendo – isso é um clichê de histórias épicas, mas um clichê que funciona muito bem. No tempo da Guerra do Anel, o tempo dos elfos está acabando e o dos homens começando; no tempo dos eventos de Game of Thrones, a magia está ressurgindo e o próprio sistema existente entre os reinos talvez passe por uma grande reviravolta (ainda estamos pra descobrir isso, com os últimos dois livros); e no universo de Witcher, alguns diálogos do personagem principal com um sacerdotisa são a entender que esse mundo está passando por mudanças físicas, algo que afetará a todos, mas não fica claro do que exatamente se trata. Por enquanto só li o primeiro livro desta Saga, vamos ver como essa temática se desenvolve nos próximos.

Um dos motivos pra não ter jogado os jogos ainda era querer ler os livros primeiro é ter a experiência plena de leitura e poder imaginar todos os cenários, situações e personagens independentemente da arte gráfica do jogo. Isso foi ótimo pelas descrições das personagens femininas, especialmente Yennefer, a quem o autor dedica muitas linhas no conto em que ela aparece. No caso do personagem principal, Geralt de Rívia, isso já é um pouco difícil, querendo ou não todos já vimos as imagens de divulgação dos jogos.

Por sinal, os personagens tem pouca ou nenhuma apresentação, você descobre o que há para ser descoberto conforme a ação acontece. Isso é ótimo por um lado, pois a ação não é interrompida por descrições que podem cortar seu ritmo, mas não tão bom por outro, pois algumas vezes um personagem que teve uma ação breve em um momento fará uma aparição mais importante em outro, e você fica pensando "quem era mesmo essa pessoa?".


Enfim, curti demais esse primeiro livro e pretendo ler os demais em breve, além de (talvez) me aventurar a jogar os vários jogos da franquia. Você já leu este livro ou alguma outra parte da saga Witcher? Deixe aqui seu comentário!

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