domingo, 7 de junho de 2026

Elegia a Tarcísio Lakatos

 Há duas semanas o meio medievalista brasileiro perdeu um de seus gigantes.



Where now the horse and the rider? Where is the horn that was blowing?

Where is the helm and the hauberk, and the bright hair flowing?

Where is the hand on the harpstring, and the red fire glowing?

Where is the spring and the harvest and the tall corn growing?


(J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, elegia Rohirrim após a morte de Théoden)



Tarcísio era muitas coisas: marido e pai dedicado, professor e pesquisador de História, jogador e treinador de futebol americano, jogador e mestre de RPG, e um grande amigo. No contexto do medievalismo, foi pesquisador, ferreiro, praticante de HEMA e HMB, cozinheiro e organizador do único evento focado exclusivamente em culinária medieval.


O Tato (como eu o chamava) participou, lá no começo dos anos 2000, dos primórdios disso que a gente chama de meio medieval no Brasil, com os grupos Ars Medievalis e Guilda dos Armoreiros. Quando a Ordo Draconis Belli foi fundada em 2011, Tarcísio foi um dos treinadores originais, ensinando técnicas de combate e manuseio de equipamentos que seriam as bases para várias gerações de membros (a Ordo é hoje um dos grupos de lutas históricas mais antigos ainda em atividade no país).




Quando eu o conheci pessoalmente, lá por 2016, as palavras que um outro amigo usou para descrevê-lo foram “um cara absurdamente inteligente”, e eu logo verifiquei que não era exagero. Tarcísio era um poço de conhecimento, especialmente nos assuntos sobre os quais era apaixonado: história antiga e medieval, culinária, e as intersecções entre esses temas. Em 2014, fundou o Schola Militum, um grupo para estudo e prática de HEMA (Historical European Martial Arts) e HMB (Historical Medieval Battles), do qual foi sempre o líder e instrutor.







Entre 2014 e 2017, realizou quatro edições do Banquete Medieval Schola Militum, que servia ao mesmo tempo como celebração do aniversário do grupo e como um evento para apreciação de culinária medieval.


Cada edição do banquete, cuja cozinha também era pessoalmente dirigida por Tarcísio, teve uma seleção diferente de pratos, sempre com entrada, três courses e sobremesa.


Metz e Benes Yfryed, servidos com molhos Cameline e Galantyne no Banquete de 2015

Torta Húngara, servida no Banquete de 2017

Todas as receitas, sem exceção, eram preparadas com base em extensa pesquisa histórica e esmero para reproduzir tão fielmente quanto possível a experiência de um banquete medieval. Nesse assunto, Tarcísio era perfeccionista em um nível quase obsessivo.




So this is goodbye, I take leave of you and

Spread your wings and you will fly away now, fly away now


Nothing on earth stays forever

But none of your deeds were in vain

Deep in our hearts you will live again

You're gone to the home of the brave


(Glory to the Brave, HammerFall)


Tato também se aventurava como escritor. Dois de seus contos estão publicados aqui no blog: A Besta Entre Nós e Lembranças de um Cavaleiro - A Companhia Negra. O primeiro é uma história de lobisomem contada da perspectiva de um pesquisador acadêmico que se debruça sobre um pergaminho medieval occitano, e o segundo é uma história de fantasia narrada em primeira pessoa por Wolfgang Zsoldos, um velho guerreiro que conta suas memórias. Ambos os textos carregam um forte traço autobiográfico.


Erga-se agora sobre a quilha

A brisa do oceano em seu rosto é fria

Que nesse momento não lhe falte coragem

Aqui termina sua vida selvagem

Para aqueles que sorriem para a morte

Os Deuses reservam a melhor sorte

Com mulheres na vida você teve prazer

Um dia todos devem morrer


(Poema recitado pelo guerreiro islandês Þórir Jökull antes de sua morte em 1238, tradução minha a partir da versão em inglês de Anthony Faulkes)


O Cena Medieval nasceu com a proposta de ser um lugar para falar do meio medieval no Brasil, e um dos primeiríssimos textos do blog, lá em 2015, foi justamente um post divulgando o banquete do Schola Militum, numa época em que eu e o Tarcísio nem nos conhecíamos pessoalmente. Ao longo de toda a história do Cena Medieval, ele foi a pessoa que mais insistiu para que eu continuasse escrevendo e postando, então nada mais justo do que ter aqui um post sobre ele e algumas de suas realizações (sinto muito, Tato, que o blog esteja tão parado, e que essa postagem seja a primeira depois de um intervalo de dois anos).


Que sono é este que em seu poder te mantém? 

Estás perdido no escuro e não me podes ouvir.


(Trecho d'A Epopéia De Gilgamesh, c. 2100 a.C. Tradução De Carlos Daudt De Oliveira)



Tarcísio foi um exemplo de coragem, disciplina e amizade, como qualquer pessoa que conviveu com ele sabia. Sua presença é eterna e ao mesmo tempo insubstituível em cada treino de luta, em cada mesa de RPG, em cada roda de conversa sobre os assuntos nos quais ele mostrava tanta paixão e conhecimento.


Todas as coisas agrestes das campinas e dos pastos, 

As trilhas que amavas na floresta dos cedros, 

Noite e dia murmuram. 

Que os homens ilustres de Uruk, 

A cidade das poderosas muralhas, 

Chorem por ti;


(Trecho d'A Epopéia De Gilgamesh, c. 2100 a.C. Tradução De Carlos Daudt De Oliveira)


Tarcísio era muitas coisas, e fica aqui minha homenagem ao pesquisador, ao ferreiro, ao esgrimista, ao escritor, ao cozinheiro, e principalmente ao amigo, um gigante no que representou, na falta que vai fazer, e no legado que deixou.






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