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domingo, 17 de junho de 2018

Lembranças de um Cavaleiro - A Companhia Negra, um conto de Tarcísio Lakatos

Meu nome é Wolfgang Zsoldos, sou Senhor de terras, Cavaleiro, já fui um Aventureiro, provei meu valor tanto nas liças, como em batalha, ganhei meus títulos e minha fortuna pela força de meus braços, minha coragem e minha perícia, vivi, amei, fui feliz e sofri. Hoje sento em meu Solar, esperando que a morte me leve para minha derradeira aventura, minha última viagem ao desconhecido, mas enquanto meu tempo nesta terra não se esvai eu oro aos meus deuses por uma morte digna e relembro meus dias de glória... os quais escrevo nestes pergaminhos soltos.



Sempre me lembro daquela primavera em que finalmente deixei as terras de meu avô em busca de aventuras, o Sol brilhava forte no céu, os pássaros cantavam e o gelo já havia derretido das montanhas, apesar de ser apenas o começo da estação, deixando cada córrego límpido, rápido e gelado. As estradas haviam virado lamaçais, com a movimentação de carros de boi, cavalos e camponeses misturada às chuvas quase diárias, enfim era uma bela primavera, nada mais distante do meu humor soturno naquele momento.

Minha mente se voltava para o meu passado, para meu maior inimigo, se é que um donzel de 21 anos pode achar que tem um inimigo, e pensava como poderia atingi-lo, sem nunca achar uma boa solução. Eu precisava de dinheiro, dinheiro compraria armas e soldados, mas também precisava de renome, sem um nome forte seria uma luta perdida contra um senhor mais poderoso do que eu; e tudo que eu tinha era um cavalo, uma égua de montaria, e uma armadura leve, além de algumas moedas em minha bolsa...

– E então? Vamos ficar eternamente parados nessa encruzilhada? Se você pretende passar mais algumas horas encarando essa placa com tanto interesse, é melhor eu desmontar e preparar algo para comermos, eu já estou morrendo de fome.

A voz de Roland me tirou de meus devaneios, ele era meu companheiro de treinos – um ano mais jovem do que eu, fora deixado na casa de meu avô na esperança de que, além do treinamento com armas, ganhasse alguma posição. Enquanto éramos crianças passávamos mais tempo brigando entre nós do que cumprindo com nossas obrigações; crescemos lado a lado, sempre competindo um com o outro, sempre lutando com o máximo de força para superar o outro, nos tornamos mais do simples amigos, éramos irmãos. E no dia que eu decidi finalmente me aventurar Roland não exitou em me seguir.

– Talvez seja melhor, eu também estou com fome, e ainda não decidi o que devemos fazer...

Uma vez tirado da linha de pensamentos cada vez mais nefastos, pude aproveitar um pouco a beleza daquele dia. Roland sempre fora rápido no riso, bem humorado, galanteador, enquanto eu era soturno, introspectivo e muitas vezes até frio com pessoas desconhecidas. Nossas personalidades distintas se completavam.

– Mas deixe que eu cuido da comida, estou cansado de comer cascas de ovos no omelete – era com meu amigo que eu soltava meu lado mais leve e brincalhão, provocando-o incessantemente por pequenos erros e desvios.

Lembro de termos comido e de descansarmos por algum tempo embaixo de uma árvore ao lado da estrada, nossos cavalos pastavam a poucos metros e conversávamos sobre assuntos leves, talvez alguma aventura amorosa de Roland, ou sobre algo que eu lera num pergaminho de meu avô, que fez questão que eu aprendesse a ler “Um soldado que não sabe ler é uma espada cega na mão de um cego”, dizia ele. Nunca achei que a habilidade me desse nenhuma grande vantagem na vida, mas eu tomara gosto durante a minha infância e por hábito lia tudo em que podia por as mãos. Quando finalmente eu tive um estalo, me lembro de levantar de um salto com um grito de “É ISSO!” enquanto meu amigo quase caia de costas. Eu precisava de dinheiro e de fama, era primavera, nosso caminho nos levava a um único destino, era óbvio! Tínhamos que nos inscrever nos Torneios! Podíamos fazer uma fortuna e ainda um nome nas liças, bastava derrubar as pessoas certas nos lugares certos! Lembro que Roland rapidamente aceitou minha ideia quando, depois de alguns momentos de pura felicidade pela ideia, lhe expliquei o meu plano. Éramos jovens, éramos fortes, rápidos, bem treinados, corajosos e nunca havíamos estado numa liça de verdade... Partimos naquele instante em direção à primeira aldeia, com a cabeça cheia de ideias e a certeza de que, uma vez que entrássemos no Torneio nosso nome estaria feito.

Chegamos na Aldeia da Ponte Quebrada dois ou três dias antes do Torneio do lorde local, não me lembro mais o nome dele, era um torneio pequeno, um corpo a corpo em grupos, com alguns homens montados, ou um meleè como o chamávamos, mas deveria atrair nobres da região e alguns homens de armas. Seria um bom lugar para testarmos o que havíamos passado anos treinando. Era importante que nos reconhecessem como nobres, não queríamos que nossa falta de renome nas liças nos condenasse a ficar “sem uma bandeira”, ou seja, fora de um dos dois exércitos que seriam formados pelos lordes mais importantes do lugar, por isso juntamos nossas parcas moedas e gastamos copiosamente, contratamos um ferreiro para dar polimento e manutenção em nossas armas e armaduras (na estrada normalmente éramos nós mesmos que fazíamos esse trabalho), alugamos um quarto numa das estalagens mais caras e pagamos rodadas da cerveja local para todos nas noites em que ficamos por lá, durante o dia tentávamos parecer experientes, temíveis e magnânimos. Éramos dois idiotas se fingindo de pavões, graças aos deuses ninguém daquela época seria capaz de me reconhecer.

Finalmente o Torneio estava para começar, naquele dia lembro que tomamos o cuidado de, apesar de estarmos acordados desde a Aurora, descer apenas quando o salão da estalagem estivesse cheio. Usávamos nossas melhores túnicas, havíamos dividido o que sobrara das moedas em nossas algibeiras para que cada um tivesse o mesmo tanto e ainda escondemos as duas últimas libras num baú, seria a nossa salvação se tudo mais desse errado. Estávamos ansiosos, nervosos e completamente pobres, precisávamos ser escolhidos e precisávamos de alguns resgates gordos. Lembro de nem sequer ter posto os pés nas tábuas da taverna quando uma voz desagradável chegou aos meus ouvidos:

– Ora se não são mais dois soldados? O gordo parece ser forte ao menos, o magro está precisando de algumas refeições antes de poder entrar nas liças, vocês tem dinheiro?

Eu estava pronto a saltar os metros que nos separavam, eu sabia que eu não era um homem pequeno, pois pesava quase 300 libras e na época tinha mais de 6 pés de altura, mas meus ombros largos, e braços fortes eram as partes mais volumosas do meu corpo, eu podia facilmente jogar um daqueles pesados bancos de taverna através do espaço e fazê-lo provavelmente se enterrar na cara daquele falastrão ou se espatifar direto contra a parede. Roland tampouco poderia ser taxado de simplesmente magro, sua forma esguia muitas vezes enganava quem não o conhecia, mas o fato era que ele era somente músculos e tendões por baixo de sua túnica, foi ele quem rapidamente pôs a mão em meu ombro e evitou que eu pulasse cegamente sobre o dono da voz desagradável.

Pude então vê-lo melhor, era um senhor de terras claramente rico, seus trajes e joias indicavam isso, devia ser algo em torno de seis a oito anos mais velho que nós dois, mas era bem mais baixo, já estava ficando calvo e apesar do comentário sobre o meu peso não se podia deixa de notar sua barriga sobre o cinturão de placas de ouro e esmalte...

– Eu perguntei, vocês tem dinheiro? Ou são só mais dois homens de armas passando fome? – a voz desagradável do homem me tirou do meu devaneio, eu tinha de responder à altura, sem grosseria, mas de forma que deixasse claro que não estávamos passando fome... ainda.

– Eu sou Sir Wolfgang Szoldos, e este é meu companheiro de armas e aventuras, Sir Roland Griffin, ficamos sabendo do Torneio e viemos com o intuito de participar, mas pelo jeito agora só há espaço para homens de armas, acho que teremos que ir embora.

– Ora não tão rápido meus caros, se eu soubesse que haveriam mais alguns cavaleiros na cidade teria preparado uma recepção melhor, sou Reinard Spigolon, e essa é a minha guarda, pretendemos entrar no meleè, e vocês o que pretendem?

– Também pretendemos entrar no meleè, mas ainda não temos uma bandeira, também não temos uma guarda conosco, mas posso garantir que estamos prontos a lutar por quem nos recrutar como se fosse nossa própria bandeira.

– Sim, imagino que sim... Bem espero que tenham sorte, eu vou me juntar ao meu grupo, até mais meus caros.

Não seria possível descrever a decepção que eu estava sentindo naquele momento, esperava impressionar aquele homem o suficiente para que, se ele não nos colocasse sob a bandeira dele, pelo menos nos apresentasse a outros nobres, mas ele nos dispensara e agora estávamos apenas eu e meu amigo ainda na estalagem que se esvaziou quase instantaneamente quando Spigolon saiu... Sentindo-me derrotado me joguei numa cadeira e pedi para que trouxessem cerveja, pão e um pedaço de bacon, eu estava faminto e pelo jeito não iríamos comer às custas de algum senhor naquele dia. Roland se sentou à minha frente, tão acabrunhado quanto eu. Dividíamos aquela refeição parca como dois homens condenados, era como se nossos sonhos tivessem sido arrancados de nós pelas palavras daquele sujeito. Eu me encontrava tão absorto em pensamentos que só vi o homem quando ele se sentou ao nosso lado, vestia-se todo de azul, tinha a cabeça pelada e uma grande barba negra, devia ser um palmo mais baixo do que nós, mas claramente era um lutador, apesar de que naquele momento ostentava um largo e sincero sorriso. Ele puxou uma cadeira, virou seu encosto para a frente e então sentou-se pesadamente, cruzando os braços sobre o encosto.

– Não fiquem assim, é claro que ele não os chamaria de imediato, assim pareceria que a força dele não é suficiente, o que de fato não é... A propósito meu nome é Robert, mas todos me conhecem como Aquila, sou só um homem de armas antes que me perguntem minha casa ou títulos – o homem era desconcertantemente autoconfiante, tudo que havíamos tentado passar nos dois dias que ficamos na cidade pareciam ainda piores à sombra do sujeito sentado à nossa frente – Escutem, eu tenho uma proposta para os dois, se quiserem ouvir, é claro, acho que ela pode nos dar mais chance de garantirmos nossa presença nesse torneio, e assim garantirmos algumas moedas e nossas barrigas cheias às custas de algum nobre poderoso da região.

Sua postura e fala deveriam ser quase ultrajantes, apesar de mais novos éramos nobres de nascimento enquanto ele era um camponês, mas a sua presença era tão poderosa que esquecemos disso e só queríamos ouvir seu plano.

– Eu tenho um colega já, um bárbaro nortenho, um pouco rude, mas excelente com um machado, posso tentar juntar mais alguns soldados e quem sabe mais um ou dois segundos ou terceiros filhos de nobres, formamos um pequeno grupo e oferecemos o serviço em conjunto, assim parecemos uma força mais interessante para um nobre, o que acham?

Aceitamos o plano maluco de Aquila no momento em que ele fechou a boca, era aquilo ou correr o sério risco de ficarmos sem lutar e, consequentemente, sem dinheiro. O homem rapidamente se levantou, apertou nossas mãos, disse que estaria de volta até o meio dia, e saiu assoviando, nesse momento aproveitei para olhar meu companheiro, ele estava tão confuso quanto eu... Mal Aquila não podia ser mais ouvido, Roland balançou a cabeça, deu uma risada e disse:

– Não sei exatamente o tamanho da encrenca que estamos nos enfiando, mas com certeza vai ser uma das mais divertidas.

Dito isso ele também se levantou, pegou uma maçã que estava em seu bolso, e subia as escadas ainda rindo consigo mesmo, me deixando com meus pensamentos e uma caneca de cerveja.

Não era ainda meio dia quando Aquila voltou de sua incursão, ele havia juntado algo em torno de vinte homens, alguns eu só vi naqueles poucos dias, outros nos acompanharam por anos. Entre eles estavam dois irmãos: Rorik e Bruvik eram tão parecidos que eu nunca aprendi a diferenciar um do outro. Eles diziam ser gêmeos, mas não tinham certeza nem de quando nasceram, vinham de um vilarejo distante, às portas da Floresta Élfica, onde aprenderam a manejar o arco longo com precisão mortal. Ambos mal chegavam à altura do meu peito, eram magros e pareciam nunca terem comido uma refeição quente, mas eram maliciosos e verdadeiramente malvados, e ficaram genuinamente decepcionados quando lhes explicaram que aquele Torneio não era para matar os adversários. Cada um carregava também uma faca habilmente afiada e uma grande marreta de madeira, dessas usadas para fincar postes no chão, e eu os peguei afiando as hastes de madeira das flechas um pouco depois de termos dito que era para retirarem as cabeças de metal, mas com o tempo descobri que eram excelentes companheiros de viagem e muito fiéis àqueles que eles gostavam. Havia também um segundo filho de uma casa importante, Matthias Von Ezemberg era da minha altura, mas um pouco mais corpulento, forte como um touro, impressionantemente rápido para seu tamanho, e uma verdadeira ameaça quando usava um martelo de guerra, mas no geral era preguiçoso e indolente, só participava dos Torneios quando havia algo que o interessava muito, um prêmio ou algo parecido, no resto do tempo preferia beber ou dormir, com o tempo passamos a gostar um do outro, mas naquele dia lembro que ele me cheirou a encrenca. Haviam muitos outros, mas não vou me alongar nessas descrições, a verdade era que agora éramos um grupo, esfarrapado, nada conciso e claramente montado às pressas, mas ainda assim éramos um grupo, e com Aquila e seu companheiro bárbaro logo às nossas costas seguimos para a praça central.

Acabou sendo mais fácil do que pensávamos, nosso patrono era um nobre de sobrenome Von Müllen, devia estar perto dos quarenta anos, tinha uma grande barba ruiva, mas mantinha os cabelos muito curtos e estes já eram bem ralos no alto da cabeça e no cocoruto, era de riso fácil, bem humorado, largo como uma barrica, e entendia de guerra, por muitos anos nos encontramos nos campos de batalha e desde aquele primeiro dia desenvolvemos um respeito mutuo. Lembro que sua primeira frase para mim foi:

– Que diabos de nome de família é esse? Não é antigo britoniano, não é novo britoniano, não é élfico, nem nodrheimr... Você e sua família saíram de que antro filho?

Expliquei que meu avô havia vindo de longe, que era um guerreiro mercenário, e que quando ganhou suas terras e seu título fez uma brincadeira, assumindo a sua profissão como sobrenome. Von Müllen achou a história tão pitoresca que me procurava de tempos em tempos para saber mais de mim e de minha família. Nunca me chamava pelo meu primeiro nome, apenas pelo meu nome de família ou então de Ruivo, acho que era uma brincadeira que só ele entendia, pois apesar de meus cabelos serem de um tom acobreado de louro, estavam muito longe do vermelho fogo dos cabelos dele mesmo.

Em nosso pequeno exército estavam também os homens de Spigolon, infelizmente não seria daquela vez que eu poderia ter minha desforra. Fomos alojados em outra parte da Aldeia, os nobres mais importantes na estalagem, nobres menores, cavaleiros andantes e escudeiros ganham seu espaço num grande estábulo, que havia sido lavado, mas que ainda cheirava a estrume de cavalo. Os demais, sem nascimento, homens de armas e soldados, tiveram que passar a noite ao relento mesmo, por sorte estava esquentando e não havia chovido os últimos dois dias.

Durante a noite, enquanto comíamos nos mostraram um mapa, que deveríamos memorizar, nele mostravam os locais que eram “casas seguras”, ou seja, locais onde um nobre poderia se esconder para fugir de captores ou esperar os acordos... os limites no terreno do meleè, e tudo o mais que precisávamos saber... Mal dormi aquela noite, eu e Roland passamos a noite imaginando como seria o dia seguinte. Acordamos com o galo cantando e nos deparamos com Von Müllen fazendo seu desjejum, o homem comia como se fosse sua última refeição, ovos cozidos, pão, cerveja fraca, bacon, uma codorniz, salame, manteiga e na hora que entrávamos pela sala ele estava meticulosamente cortando uma fatia de uma grande torta de pombo, damascos e nozes. Nos sentamos em uma mesa próxima, a sala da estalagem estava quase vazia à aquela hora, pedi apenas pão, manteiga, um pedaço de carne e uma sangria, bebida que havia aprendido a apreciar no solar de meu avô, sabia que o dia seria longo e desgastante, mas não tinha estômago para tanta comida, por isso escolhia com cuidado o que comeria antes do meleè. Roland me acompanhava, quando finalmente Von Müllen terminou sua longa refeição dirigiu-se a nós.

– Espero que tenham dormido bem, hoje será um grande dia! Até ali estávamos plenamente dispostos e prontos. – Seu grupo está pronto? Está ciente do que tem que fazer? – respondi afirmativamente. – Ótimo, deixarei vocês encarregados de serem a força reserva, ficarão lá até que sejam necessários.

Aquilo foi como um soco na boca do estômago, a reserva significava que talvez nem sequer entrássemos em combate, nesse instante percebi Spigolon sentado à mesa com Von Müllen, descobri depois que ambos eram próximos e provavelmente devia ter sido ele quem sugeriu nos colocar na reserva, minha vontade de socar aquela cara satisfeita só crescia. – Mas senhor, há a necessidade de uma reserva num meleè? Não seríamos mais úteis na frente de batalha, ou ao menos engrossando a retaguarda? – argumentei, tentei parecer razoável e experiente, mas Von Müllen simplesmente descartou minha sugestão, e nos deixou na reserva.

O meleè começou ao meio dia, quando uma trombeta foi soada, nosso exército usava as cores de Von Müllen, Azul, Prata e Dourado, Enquanto o adversário usava Verde, Vermelho e Dourado. Apesar de usarmos as cores, eu carregava o escudo com o símbolo de minha família, um Turul Prata sobre o campo Azul, assim como Roland ostentava o Grifo sobre um campo Vermelho. Nosso grupo carregava uma mixórdia de símbolos e cores, e me lembro de aquilo ter me incomodado naquele momento. Eu usava um chapéu de ferro, uma malha, um peitoral globular simples, ombreiras, manoplas, cotoveleiras e joelheiras flutuantes, não usava grevas ou sabatons, Aquila havia sugerido que lutássemos sobretudo a pé. Meu escudo estava jogados nas costas, na cintura eu carregava uma espada de uma mão e uma adaga e como arma principal usava um grande machado de batalha, com a lâmina desenhada de forma que eu pudesse também estocar com ela. Roland usava um meio elmo de aço com malha em volta do pescoço e uma camisa também de malha, estava com os antebraços protegidos por aço e manoplas, também usava cotoveleiras e joelheiras flutuantes, mas mantivera as grevas, carregava uma alabarda e uma espada à cintura, com o escudo também jogado às costas. Vimos o avanço das tropas de Von Müllen, enquanto nos contentávamos a ficar sentados, esperando por uma chance. Pouco depois de todo o grupo ter partido Aquila veio falar diretamente conosco. Ele estava claramente agitado e irritado pela atual situação, e ele sugeria que “recebêssemos uma ordem errada” e entrássemos no combate, antes que os homens debandassem como claramente eles começavam a dar sinais... Era arriscado, podíamos perder tudo e ainda sermos alvos do descontentamento de um nobre bem mais poderoso, mas se ficássemos parados também estávamos correndo riscos, lembro que olhei para Roland e ele deu de ombros, como se aceitasse qualquer decisão que eu fosse tomar naquele momento, por mais estúpida que fosse, e foi o que eu fiz, se era para correr o risco que pelo menos valesse a pena.

Separamos o grupo em três forças menores, uma delas era nominalmente liderada por Matthias, mas quem realmente daria as ordens seria Aquila, esse grupo tinha a função de achar a nossa “presa”, eu lideraria o grupo que serviria de isca e Roland fecharia a armadilha quando o nobre fosse atraído. Iríamos agir de forma bastante incomum, normalmente o que se fazia era simplesmente se engajar num corpo a corpo, mas nós queríamos garantir que a balança da fortuna pendesse para o nosso lado. Aquila e Matthias se distanciaram rapidamente com mais dois batedores, todos a cavalo, eu junto com o amigo bárbaro de Aquila, que se chamava Erik, e mais alguns dos combatentes melhor protegidos e mais fortes procuramos um lugar bom para nossa emboscada, e sem muito buscar achamos uma clareira, nem muito estreita, nem grande demais, e nos postamos bem no meio, com uma fogueira propositalmente fumacenta, enquanto Roland e seus homens se espalhavam no entorno. Pouco depois das quatro horas um dos batedores voltou afobado, avisando que Aquila e Matthias vinham liderando um grupo com alguns nobres até as proximidades. Mandei que colocassem mais madeira e folhas no fogo e me sentei, fingindo não prestar atenção ao redor, eu estava tenso, assim como os homens, mas tínhamos que fingir sermos presas fáceis se queríamos que os cavaleiros nos atacassem.

Escutei o resfolegar dos cavalos quase um minuto antes do primeiro cavaleiro aparecer na clareira, eram cinco ou seis homens montados, todos com armaduras brilhantes, cavalos bem alimentados e protegidos, eram como sacos de ouro sendo jogados aos nossos pés. Os cavaleiros estavam certos de que éramos alvos fáceis e vieram com toda força, coloquei alguns dos homens à frente, com grandes escudos, queria me livrar das malditas lanças, mas não queria ferir os cavalos, cada animal daquele valia semanas de soldo para toda uma companhia. Ficamos em posição de cunha, com as cabeças abaixadas atrás dos escudos, forçando os cavaleiros a irem para a esquerda ou direita, após atingirem inutilmente os grandes escudos. Algumas das lanças estavam quebradas e pelo menos dois ou três dos cavaleiros haviam diminuído o passo, para sacarem armas reservas ou para entender o que estava acontecendo, era a nossa chance de começar a virar o jogo, gritei para meus homens que se dispersassem, peguei meu machado e corri para o homem mais perto, acertei seu escudo com tanta força que a vibração subiu pelo meu braço e senti os músculos do meu pescoço reclamando do esforço, mas a pancada foi forte o suficiente para fazê-lo cair de costas enquanto seu cavalo empinava, o homem era ágil e se levantou bem antes de eu conseguir segurar as rédeas do cavalo dele, não queria perder o animal, e sacando uma espada longa da cintura veio ao meu encontro. Normalmente uma espada não é, nem de longe uma arma apropriada para o campo de batalha, nós a carregamos mais como um símbolo de poder e para enfrentar algum eventual inimigo sem armadura, mas nesse caso, pela escolha de equipamento que eu fizera estava claro que aquele homem queria enterrar a lamina em meu rosto. Pus o cabo do machado à minha frente, e procurei defender a maioria dos ataques furiosos do homem, esperei até que ele abrisse a guarda, então girei sobre os meus pés, me movendo para a direita, enquanto deslizava meu machado pelas mãos, a longa haste impulsionando a pesada e letal cabeça, acertei tão forte seu elmo que além de soltar a espada o forcei a ficar de joelhos. Antes que ele pudesse se levantar, dei um segundo golpe que o derrubou de cara na terra, me virei em busca de mais um adversário, vi Matthias passar cavalgando rapidamente e, com seu martelo, acertar brutalmente um homem que estava tentando se defender de outros dois de nossos soldados. Corri até seu cavalo, joguei o machado no chão e o puxei lá de cima, ele estava tão desorientado que caiu como um saco de trapos aos meus pés, abri sua viseira e pus a ponta de minha adaga ali, ele imediatamente se rendeu. Ainda havia quatro dos cavaleiros montados, agora eles haviam percebido nosso estratagema e tinham se reunido numa das bordas da clareira. Formaram uma fileira e começaram a avançar com cautela, controlando o passo dos animais, preparando uma carga de verdade, uma que meus homens não poderiam simplesmente bloquear com os escudos. Eles estavam a uns trinta passos de nós quando a primeira flecha bateu na cabeça de um dos cavalos, o único que estava sem testeira, o animal refugou na hora e, assustado pela dor, tentou se mover para o lado, empurrando mais um dos cavaleiros para fora da carga. Ainda haviam dois, que avançavam implacavelmente. Nesse momento vi Roland saindo do meio das árvores junto com sua divisão. Das árvores acima, os dois irmãos lançavam flecha atrás de flecha, impedindo que os cavaleiros arriscassem abrir as viseiras para enxergar melhor. Roland avançou diretamente para os dois cavaleiros, sua lança estava ainda de pé, como havíamos treinado, ele só a baixou, lentamente, quando já estava praticamente sobre os dois adversários, em vez de mirar nos homens Roland atacou o flanco do cavalo com a sua lança embotada, fazendo com que o animal saísse do controle, quase jogando o cavaleiro em cima de nós. O homem restante conseguiu desviar a tempo e fugiu entre as árvores, mas não importava, havíamos capturado quatro nobres, seus bens e animais, era um dinheiro bom.

Von Müllen não ficou muito feliz com a nossa atitude, mas não podia negar que havíamos conseguido uma grande tarde. Spigolon, que estava com ele desde o início do meleè, havia conseguido capturar apenas cinco cavaleiros. Então Müllen simplesmente pegou a sua parte do resgate e nos dispensou, era duro ver metade de nosso dinheiro ir embora dessa forma, mas o que tínhamos ainda era muito bom. Decidimos que dividiríamos tudo por igual, ideia de Aquila, o que irritou profundamente Matthias. O normal era que ficássemos com metade para dividir entre os nobres e que a outra metade fosse dividida entre os de baixo nascimento, mas como não teríamos conseguido nada sem Aquila e sem os homens, achamos que seria algo justo dividir tudo igualmente. Matthias por pouco não nos deixou aquela noite, mas passou a próxima semana emburrado, enfiado em sua tenda com seus homens de armas bebendo e nos xingando. No futuro riríamos disso, mas lembro que eu só queria entrar naquela tenda e socar aquela cara gorda, foram Roland e Aquila que evitaram que eu o fizesse.

Passamos a primeira noite depois do meleè completamente bêbados, rindo por nossa sorte, por nossa ousadia, Deuses! Como eu gostaria de ser novamente tão jovem e idiota! No dia seguinte havíamos gastado quase metade do que ganhamos, mas estávamos felizes e certos que poderíamos fazer mais e mais, fosse em liças fosse na guerra. Passei aquele dia conversando com Roland e Aquila, não queria que o nosso grupo se separasse, e depois de muito conversarmos e negociarmos formamos nossa própria companhia. Seríamos cavaleiros, mas também venderíamos nossos serviços, era um começo... mas não tínhamos um nome, uma identidade.

Felizmente Erick, o grande amigo bárbaro de Aquila nos deu uma boa sugestão, apontando para o próprio escudo, pintado de negro, ele nos disse:

– Os homens sempre tiveram medo da escuridão, pretos são os animais mais venenosos ou perigosos, tomemos o preto como nossa cor e vamos trazer o terror ao coração dos nossos inimigos.

Assim nascia a Companhia Negra, onde eu estive à frente por muitos anos, lutando guerras e liças, ganhando renome, glória e dinheiro.

Mas agora essa história termina por aqui, estou cansado, meus olhos se fecham e meu corpo está dolorido, irei para meus aposentos, onde, com sorte, o sono me trará lembranças felizes de minha glória passada.





Tarcísio Lakatos é mestrando em História pela USP, estudioso do período medieval e fundador do grupo Schola Militum de HEMA e HMB

Imagem de capa: English: The Melee, Eglinton Tournament, Irvine, Ayrshire (1839), do pintor James Henry Nixon




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