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terça-feira, 12 de junho de 2018

Old Norse, a Saga: Cap. IV – O Funeral (prelúdio)

Salve, vikings e medievalistas!

Estamos a menos de um mês do Old Norse e finalmente chegou a hora de vocês conhecerem a história e os personagens do capítulo deste ano!


Como vocês sabem, o Old Norse é um acampamento viking que vem desde sua primeira edição, em 2015, contando uma saga, cujo quarto capítulo será apresentado este ano. A narrativa deste post faz parte da saga, mas é apenas uma introdução... os acontecimentos principais serão presenciados em primeira mão por quem estiver presente no evento!



Caso você não tenha acompanhado os capítulos anteriores desta saga, pode conferi-los aqui:


Capítulo II – Portões de Valhala (continuação)

Capítulo III – Yule (prelúdio)

Capítulo III – Yule (continuação)

Os capítulos anteriores eram histórias de Philippe Meier e Jansen Nunes, os organizadores do evento. O prelúdio do Capítulo I foi escrito por Bruno O'Shea Machado e a continuação pelo próprio Philippe Meier. Os capítulos II e III possuíam história (que foi encenada durante os eventos), mas ainda não possuíam parte escrita, de modo que eu, Skald Rafael, os adaptei em texto para estas publicações, que passarão a compor o registro escrito da Saga Old Norse.

O Capítulo IV, que vocês estão prestes a ler, é o primeiro em que eu colaborei com os organizadores do evento para desenvolver não apenas o texto mas também o próprio enredo que acontecerá durante a edição deste ano do evento... vamos a ele!



Capítulo IV – O Funeral (prelúdio)


A madrugada era fria e sileciosa. Nuvens cinzentas tingiam o céu há alguns dias e escondiam as estrelas à noite, mas a chuva apenas ameaçava e não vinha de fato. Era como se esperasse por alguma coisa.

Einar, o ancião, e Thorbjörg, a völva, estavam sentados em lados opostos de uma fogueira quase extinta, apenas observando as chamas moribundas, durante um longo tempo, até que a mulher quebrou o silêncio fazendo uma afirmação no tom trivial de quem faz um comentário sobre o clima.

– O rei está morto.

– Hãn? – Einar foi fisgado de sua contemplação silenciosa e demorou alguns segundos para entender o que a velha dizia. – Eu sei, ele já não tem o respeito dos homens, mas...

– Não. O corpo dele já não respira – concluiu ela fatalmente, e entrou em sua caverna para dormir, como se estivesse apenas esperando para dizer aquilo e agora pudesse descansar.

Algum tempo depois que o sol nasceu, um chifre soou longa e sofridamente, dando um sinal a todos, que logo foi replicado e espalhado.

O rei não havia levantado para urinar, como em todas as manhãs, e quando Inger, a jovem thrall que dormia com ele, tentou acordá-lo, constatou que ele estava morto e seu corpo já estava frio.

Astrid foi chamada. Ela e Earnán se reuniram no longo salão com Einar e a völva Thorbjörg em volta do corpo.

Os olhares dos outros três se voltaram para Astrid, e foi o ancião que falou:

– Você poderia ser a nova líder... Muitos de nosso povo a apoariam.

– O problema é que ela não quer – disse a völva.

– Eu e Earnán vamos embora – disse Astrid.

– Mas... e o funeral do seu pai? – perguntou Einar.

– Vou me despedir dele agora, e depois irei embora. Vocês cuidam do funeral.

– Ela está certa em fazer isso, Einar – disse a völva. – Antes que a pira do funeral de Eiðr tenha apagado, os Jarls estarão lutando.

E ela já não tem forças físicas ou espirituais para participar dessa luta...

– Há pelo menos cinco Jarls com terras e homens suficientes para quererem o título de rei. Quais deles terão coragem para se candidatar?

A princípio, a völva não respondeu com palavras, mas apenas com uma expressão pensativa. Caminhou até a porta do salão e inspirou o ar frio da manhã, como se pedisse uma inspiração ao céu e ao vento. Então retornou para onde os outros estavam, sacou suas pedras rúnicas de um saco de couro e jogou na mesa. Após estudá-las por alguns momentos, finalmente quebrou o silêncio, respondendo a pergunta de Einar.

– O vento viaja mais rápido do que a palavra dos homens, trazendo cheiros e fortunas de terras distantes, e as runas confirmaram que uma mudança importante está para acontecer nessas terras. O Yule do inverno passado marcou o fim de um cíclo, e com o inverno deste ano temos o início de outro. Os Jarls com força e coragem para disputar o título de rei serão aqueles que chegarem antes da chuva.

Astrid e Earnán pouco se importaram com a resposta, mas Einar estava muito interessado.

– Pergunte às runas quem será o novo rei...

– Isto, Einar, nem os próprios deuses sabem – concluíu a völva e caminhou para fora do longo salão, trazendo sua capa de lã mais para perto do corpo.

Pouco depois Earnán e Einar também saíram, deixando Astrid com privacidade por um tempo. Ela chorou, sabendo que tudo que havia acontecido de ruim nos tempos recentes era culpa dela. Se três anos antes ela não tivesse se deixado apaixonar por Earnán e se casado com ele, seu pai poderia ter vencido a batalha contra os celtas e voltado para casa mais rico e com o respeito de seus homens.

Mas ele voltou mais pobre, com menos respeito e sem a filha, pois além de tudo Astrid havia ficado nas terras celtas, apenas para ser capturada por um outro Jarl do norte e quase ser sacrificada para aplacar a fúria dos deuses.

Resgatá-la havia custado ao rei Eiðr suas últimas forças, e ele havia passado o último ano inteiro praticamente sem sair de seu salão. Agora ele havia morrido... não da forma que teria desejado, de espada na mão, para ser carregado pelas valquírias diretamente para Valhala, mas na cama, bêbado e fraco.

Sim, era tudo culpa dela, e esse pesar iria corroê-la até o final de seus dias.

Einar entrou novamente no salão e interrompeu seu pranto.

– Quer me ajudar a cortar as unhas do seu pai?

– Por que cortar as unhas dele?

– Para que elas não sejam usadas na construção de Naglfar, é claro.

Ele disse aquilo como quem diz uma coisa absolutamente óbvia a uma criança, e vendo a expressão de dúvida no rosto da jovem, Einar continuou com a mesma condescendência.

– Naglfar é um barco feito apenas de unhas que não foram aparadas dos mortos. Quando chegar o tempo do Ragnarök, depois que as estrelas tiverem desaparecido do céu, a terra vai tremer tanto que as montanhas vão desmoronar, as árvores vão se desmanchar e todas as ligações deste mundo se romperão, finalmente libertando o grande lobo Fenrir. Depois, Jörmungand vai furiosamente nadar até a costa, fazendo com que o mar inunde a terra. Então Naglfar partirá de Jotunheim, tendo o gigante Hrym como capitão, e transportando as legiões de jötnar, os gigantes, até Vígríðr, os campos onde eles lutarão com os deuses!

Einar havia conseguido o que queria: por um minuto Astrid havia esquecido a morte do pai e a culpa que sentia, e estava prestando atenção completa na história.

– Então, minha jovem, é por isso que nunca devemos mandar um morto para o outro mundo sem antes aparar suas unhas. Você não quer que as unhas do seu pai sirvam de material para o barco dos gigantes, quer?

Astrid não respondeu, apenas ajudou o ancião a cuidadosamente aparar as unhas do cadáver do pai. Depois disso, Einar a deixou sozinha com o cadáver novamente. Ela terminou de colocar para fora todas as lágrimas que tinha dentro de si, então se levantou e foi para a floresta, onde Earnán já a esperava, preparado com as provisões para uma longa viagem.

Eles passaram pela caverna de Thorbjörg, que foi a última pessoa que os viu antes que eles rumassem para o norte. Por muito tempo após aquele inverno o povo daquelas terras ainda comentaria e tentaria adivinhar qual teria sido o destino desse casal incomum, formado por Astrid, filha do rei Eiðr, uma shieldmaiden do norte, e Earnán mac Ulaidh, um guerreiro e príncipe celta. Haveria quem dissesse que eles viajariam até os limites de Midgard, e talvez um dia até retornassem...

Os preparativos para o funeral foram feitos da forma como a dignidade de um rei do norte exigia. Inicialmente seu corpo foi colocado numa cova temporária, junto com sua espada, seu escudo e seus tesouros, bem como presentes trazidos após sua morte.

Novas roupas começaram a ser cerzidas, e decidiu-se que o rei deveria ser acompanhado de alguém que o servisse. Imediatamente foi lembrado o nome de Inger, a thrall que dormia com ele, e a jovem aceitou seu destino, assustada mas resoluta.

Durante vários dias e noites Inger foi guardada por guerreiros, enquanto recebia bebidas preparadas pela völva e cantava tristemente. Finalmente as novas roupas ficaram prontas, e o rei foi desenterrado, vestido e colocado numa cama preparada para ele, novamente com suas armas e presentes recebidos. E enquanto esses preparativos aconteciam, a jovem thrall passou uma noite indo de tenda em tenda, onde se encontrou com os guerreiros mais leais a Eiðr (os poucos que restavam) e cumpriu suas obrigações com cada um. Ao final, cada um deles dizia "diga ao seu mestre que eu fiz isto por meu amor por ele".

Como ato final do ritual, a jovem já embriagada, cansada e semi-lúcida foi erguida alto repetidas vezes por vários homens, e a cada vez que voltava ao chão relatava uma visão diferente, deste mundo e dos outros, sobre os deuses e sobre os homens. Enfim foi colocada dentro de uma tenda e os homens em volta fizeram barulho, batendo suas armas em seus escudos. A völva entrou e saíu momentos depois com a adaga suja de sangue.

O corpo da escrava foi colocado ao lado do corpo do rei, e ambos foram cobertos por ervas para disfarçar os odores até o momento da pira ser acesa. Haviam se passado alguns dias desde a morte de Eiðr, e já era tempo dos primeiros visitantes chegarem.

Einar, o ancião, sentou-se na entrada do salão contemplando o horizonte e lembrou das palavras da völva: aqueles que chegarem antes da chuva.

Enquanto ele observava, da colina a leste dali apareceu, à frente de seus homens, um Jarl corpulento de cabelos claros. Era Uffe, filho de Knut, que havia visitado as terras do rei há não muito tempo e agora retornava. Da última vez, trouxera presentes para o rei Eiðr. Dessa vez, trazia sua mulher, seu filho e muitos guerreiros, como alguém que queria ostentar sua força.

E pelo mar, num drakkar com quase trinta homens, chegou um homem magro e de belos cabelos compridos e escuros. Era Bjorn, filho de Bjern, um Jarl que há muitos anos não passava por aquelas terras, mas que pagava bons tributos ao rei Eiðr, o que não era para menos, já que todos sabiam como ele havia voltado consideravelmente mais rico de suas expedições para o oeste nos últimos anos.

Ambos eram homens fortes e possuíam o respeito de seus seguidores. Ambos haviam vindo para o funeral do rei Eiðr, para prestar seus respeitos, fazer oferendas aos deuses e principalmente para participar do thing, a reunião de homens que certamente aconteceria assim que a pira funerária tivesse se apagado.

A chuva finalmente veio, caiu durante um dia e uma noite sem parar, e acabou subitamente, dando lugar a um céu limpo e renovado.

Apenas depois disso outros Jarls chegaram, mas nenhum deles com tantos homens ou chamando tanta atenção quanto Uffe e Bjorn.

Então... que assim seja, pensou Einar.



Continua durante o Old Norse, em 30 de Junho deste ano...



Ficou curioso pra saber quem vai ser o sucessor do rei?

Ainda dá tempo de garantir seu ingresso com o valor do segundo lote:


Nos vemos por lá!


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