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sábado, 13 de julho de 2019

Old Norse, a Saga: Cap. V – Alvorada dos deuses (prelúdio)

Salve, vikings e medievalistas!

Estamos a uma semana da quinta edição do Old Norse! Se você vai ao evento, chegou a hora de começar a imersão na história, e para isso trazemos o texto que introduz os acontecimentos deste capítulo.



No capítulo anterior, O Funeral, o falecido rei Eiðr foi devidamente velado e queimado. Na ausência de Astrid, sua filha, o povo do norte escolheu um novo rei: Uffe, filho de Knut. Mas o período de paz duraria pouco, pois as Nornas já estavam fiando as próximas provações para o povo do norte.


Caso você não tenha lido os capítulos anteriores, pode encontrar todos eles na seção de Contos aqui do Cena Medieval. Ou, se preferir, pode lê-los também no Wattpad:

Leia a saga completa no Wattpad!


Agora vamos ao que interessa:





Capítulo V – Alvorada dos deuses (prelúdio)


A fumaça negra manchava o céu do reino saxão de Sussex. Quando os homens do rei chegaram para defender a vila, encontraram apenas casas queimando e corpos. Tudo que havia de valor na vila havia sido saqueado.

– Eles são como demônios, meu senhor – disse um velho camponês que era um dos únicos sobreviventes do ataque – chegam do nada e, antes que pudéssemos perceber...

– Daneses – disse o capitão dos soldados saxões – malditos daneses...

Em cinco dias, os daneses saquearam cinco vilas. Sempre com o mesmo modo de operação: ataques rápidos contra os locais mais vulneráveis e desprotegidos. Sempre matando os homens, raptando algumas mulheres e deixando alguns poucos sobreviventes amedrontados para espalharem o medo.

Então Ealdwulf, o rei de Sussex, enviou um mensageiro, com um convite para os líderes dos daneses. Ciente de sua situação, ele queria negociar.

Quando Uffe, rei daqueles homens do norte, e Bjorn, o maior dos jarls, entraram no salão do rei saxão, encontraram Ealdwulf com um mercador que conhecia o idioma nórdico, além de alguns nobres saxões e um sacerdote do deus cristão. Como sinal de boa fé, uma farta refeição foi oferecida. Durante algumas horas, eles comeram e tentaram um diálogo muito difícil, com a mediação do mercador.

Finalmente, quando a conversa estava um pouco mais fluída, o rei Ealdwulf cortou as amenidades e foi direto ao assunto.

– Diga-me, rei Uffe. As terras de vocês no norte são férteis?

– Não tão férteis quanto essas terras que vocês tem aqui, pelo que eu vi dos campos até agora.

– Eu tenho uma proposta. O território de duas vilas passa a ser de vocês. Podem viver, plantar, e não precisarão me pagar tributos. Em troca, não devem mais atacar o reino de Sussex, mas sim o reino de Wessex, a oeste daqui.

– Sabemos que vocês estão em conflito com Wessex – disse Bjorn, com um sorriso provocativo. – E estão perdendo. Por isso decidimos atacar vocês.

– Nada como chutar um cachorro moribundo, não é? – respondeu um dos nobres saxões.

– Por que nós deveríamos nos arriscar mais? Por que saquear Wessex, um reino mais forte, com mais chances de revidar? - perguntou Uffe.

– Eu darei informações, pontos fracos. Posso até dizer qual dos monastérios deles tem mais ouro.

A proposta inevitavelmente terminou a conversa. Ponderações precisavam ser feitas. Os homens do norte voltaram para seu acampamento e no dia seguinte Uffe e Bjorn retornaram ao salão de Ealdwulf.

– Nós queremos o território de cinco vilas. Todas as que nós saqueamos.

O rei conversou durante alguns momentos com seus nobres e com o sacerdote cristão no idioma saxão, sem que o mercador fizesse a tradução.

– Muito bem. Mas eu também tenho uma condição a mais. Vocês deverão levar cinco sacerdotes cristãos junto com vocês para o norte. Um para cada uma das vilas que vocês vão ocupar por aqui. Eles deverão ser tratados como homens livres e com respeito, e deverão ter a liberdade de levar a palavra de Cristo para aqueles que quiserem ouvi-la.

Uffe ponderou. Ele esperava resistência ao pedir mais terras, mas tudo estava sendo fácil demais. Levar alguns sacerdotes cristãos para o norte era um preço barato demais para obter aquelas terras férteis dos saxões.

O silêncio reinou no salão enquanto todos esperavam a resposta, até que Uffe estendeu a mão mostrando um único dedo esticado.

– Apenas um – disse ele, e foi traduzido pelo mercador. O rei Ealdwulf e os outros nobres saxões começaram a falar, prontos para argumentar e discordar da absurda resposta de Uffe, e este decidiu que era hora de ser firme – Esta é nossa proposta. Aceite, ou prepare suas vilas e suas mulheres para nossos saques do ano que vem. Vamos vir com mais barcos.

– Isso se o rei de Wessex ainda não tiver acabado com vocês – completou Bjorn.

Uffe, Bjorn e os demais homens do norte então deram as costas e saíram do salão.

Uffe pensava que Bjorn aprovaria sua firmeza na negociação, mas a discussão começou assim que voltaram ao acampamento perto da praia. Bjorn, como um Jarl leal, esperou até que os dois estivessem a sós para discutir com seu rei. Mas quando chegou a hora, não poupou palavras.

– Nós somos vikings! – protestou Bjorn.

– Não! Nós viemos como vikings, mas nós não somos vikings. Nós somos os homens do norte. Homens daneses, como eles nos chamam por aqui. Eu conheço a sua sede de sangue, Bjorn, mas...

– Nós conquistamos cinco vilas deles sem perder um único homem! Esse povo é fraco, o ouro e a prata deles estão aqui pra quem quiser pegar...

– Mas você não pode comer ouro e prata! – disse Uffe com energia, mas sem aumentar o volume de sua voz. Ele então se abaixou, agarrou um punhado de terra escura e úmida, e levou perto do rosto de Bjorn – Isso aqui vale mais do que ouro e prata!

– Nossos deuses não são pacíficos como o deus deles.

– Odin, o pai de todos, pode ser um deus da guerra, mas ele também é o deus da sabedoria. Não seria sábio desperdiçar uma chance dessas. E se trouxermos nosso povo para cá, vamos estar trazendo nossos deuses conosco.

Mais tarde naquela noite, quando Uffe ficou sozinho, um dos homens que estava de vigia no acampamento se aproximou. Mas quando ele baixou o capuz, revelou que era na verdade a mãe de Uffe, que não ficou surpreso.

– Você negociou muito bem, meu filho.

– Pensei que você me repreenderia por permitir que um sacerdote deles vá conosco para o norte...

– Tudo tem um preço. E o que você conquistou hoje para o povo do norte é algo único.

– Bjorn não concorda. Eu sou rei, mas ele ainda é o jarl mais admirado pelos nossos homens...

– Você ganhou a lealdade de Bjorn, como eu disse que aconteceria. Ele pode não concordar com você, mas te respeita. Seria bom mostrar a ele nesse momento que você confia nele.

Com um aceno, Uffe confirmou que seguiria o conselho da mãe. Então ficou pensativo por alguns momentos, até dizer...

– Mãe... Os deuses estão conosco?

Ela suspirou longamente.

– Assim como vocês, os deuses discordam e discutem. Mesmo a paz entre os Æsir e os Vanir é uma paz frágil. Consigo pensar em um ou dois dos Æsir que não ficarão nada satisfeitos com a presença de um sacerdote do deus cristão no norte. Mas você está fazendo o certo para seu povo, meu filho. Você é um bom rei para o povo do norte, e os deuses sabem disso.

No dia seguinte, uma comitiva de saxões se aproximou do acampamento nórdico. Eles eram liderados por Ecgbert, o sacerdote que acompanhava Ealdwulf em todas as ocasiões. E para surpresa de Uffe, Ecgbert falava no idioma nórdico sem ajuda de intérprete. Falava mal e com muitos vícios, mas era plenamente compreensível.

– O Rei Ealdwulf manda dizer que aceita os termos de vocês. Apenas um sacerdote cristão irá com vocês para o norte.

– Mande trazê-lo então – respondeu Uffe – estamos quase prontos para partir.

– Não há necessidade, Rei Uffe. O sacerdote que irá com vocês sou eu.

A comitiva saxã logo partiu, deixando Ecgbert, o sacerdote cristão, sozinho entre os homens do norte. Uffe chamou Bjorn para uma última conversa antes da partida.

– Eu não vou repetir os erros de Eiðr – disse Uffe – Podemos ter um acordo com Ealdwulf, mas não confio totalmente nele.

– E qual é o seu plano?

– Você é o maior guerreiro do nosso povo – disse Uffe a Bjorn – você vai ficar aqui para comandar, junto com metade dos nossos homens. Escolha os melhores. Mais deverão chegar, com mulheres para cuidar das novas fazendas, e você ficará responsável por eles, em meu nome.

– E se Ealdwulf decidir nos trair?

Uffe colocou as mãos nos ombros de Bjorn e olhou fundo em seus olhos:

– Então você mostre a ele o que acontece quando o povo do norte decide ser viking.

E assim Uffe começou a viagem de volta para o norte, levando seus drakares da baía para o mar aberto. Assim como a grande expedição de Eiðr, a de Uffe terminava de uma forma bem diferente do planejado. Seus barcos voltavam, sim, carregados com alguma quantidade de ouro, prata e outros saques, mas também com dezenas de homens a menos. E com um elemento muito peculiar a mais: Ecgbert, o sacerdote cristão, que passava a maior parte do tempo rezando para seu deus, e quando não estava fazendo isso conversava com os homens que não estavam remando. O sacerdote parecia muito interessado no modo de vida dos homens do norte, e a cada dia aprendia mais do idioma nórdico...



Continua durante o Old Norse, em 20 de julho deste ano...



Veja também aqui no Cena Medieval:






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